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O Tempo e a Nunca tão Inútil arte de Filosofar

"Sabe esses pensamentos que, de repente, tomam a sua mente? Há alguns instantes, por mais impalpável que pareça, comecei a me questionar sobre o tempo. A princípio, senti certo medo por estar mergulhado em um pensamento tão abstrato e filosofal... Medo por perceber que eu não conseguia alcançar definições e limitações de presente, passado e futuro. Foi quando comecei a perceber o quanto ilógico é delimitar o tempo... Como mensurar o presente? Será que ao tentar mensurá-lo ele já não se desfez e tornou-se passado? Será que na verdade o que existe não é apenas passado e futuro, e um instante, mutável instante, a separá-los?

Prefiro acreditar que essa é uma invenção humana, necessária de fato, mas invenção. Prefiro acreditar que exista tão somente a vida: a união entre a minha consciência, o contexto e minhas contínuas ações. A vida é um gerúndio, essa é a verdade! E o tempo é só uma forma prática que uso para organizar as minhas ações e pensamentos...

O tempo sou eu! Sem a minha consciência e ação, o presente não se faria; sem a minha memória, o passado não existiria e sem minhas expectativas, o futuro não se projetaria em minha mente. O passado, pois, não passa de lembranças de vários momentos presentes, tempo este medido pela importância das ações nele realizadas e das emoções vividas; o futuro? Um conjunto de presentes que pretendo realizar; o presente? A minha consciência. Sem ela, a lembrança não se faria passado e o futuro não se faria expectativa, porque a ciência deles em mim não existiria.

E um paciente em coma? E quando a sanidade se esvai? Onde ficam passado e futuro? Os dias passados pela sua inconsciência em um hospital seriam passado?... Para os seus familiares sim, para ele não. Engraçado que as pessoas têm costume de dizer: ele está preso ao seu passado! E desde quando passado prende alguém? Ele está preso ao seu presente, a si mesmo. Ele está preso a ações, momentos vividos que ainda repercutem em suas emoções. Tem-se mania de medir o passado, a vida, por ações! Mas a vida é muito mais emoção e pensamento do que ação, porque são eles que me fazem agir e ditam as normas dos meus atos.

Quando penso que, enfim, tinha desmembrado o tempo, vejo que ele também se faz concreto. As construções antigas não o negam, nem o nega a literatura deixada e as fotos preto-e-branco do álbum de minha avó. Assim ele se eterniza e existe além de nossas consciências. Gerações se vão, mentes morrem para renascer e ali elas continuam, a provar que “o antes” é inquestionável. E o tempo, embora em pensamento seja sempre Presente, pelas obras humanas se concretiza Passado conjunto.

Nós fragmentamos o tempo, as pessoas, a vida e a nós mesmos. Isso é natural... O perigo é quando começamos a nos perder dentro dessas fragmentações, quando começamos a ver as pessoas sem um contexto, o presente sem um passado, o futuro sem um presente e a nós mesmos como emoção e razão em separado. O perigo é quando começamos a nos misturar, a comparar partes de nós com partes de outros, sem ver o contexto de ambos. O perigo é quando, por medo ou vaidade, começamos a acreditar tanto no passado, a fragmentar tanto o tempo, que passamos a nos perder nele. Ou, ainda, quando, na urgência de nossas vidas, passamos a viver prisioneiros de um tempo cronológico e a nos esquecer de nós.

Termino o texto sem saber porquê o comecei, talvez pela nunca tão inútil e sempre imprescindível arte de filosofar. Ou pelo simples prazer de parafrasear Sócrates e dizer: tempeio (do verbo tempear), logo existo! A questão é que existe uma grande diferença entre acreditar quando me é dito que o tempo é uma invenção humana, e perceber a dimensão disso."



Escrito por Alana às 17h04
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