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MEMÓRIAS DE UMA BONECA DE PANO

Boneca de pano em seus inúmeros retalhos, unida pela poesia da vida em toda sua metalinguagem, é o que sou. Uma poesia costurada não por palavras, mas pelo fio da vida que integra e esculpe cada retalho história que me conta. O fio não finda em um ponto cego, nem se fecha em minhas costuras, ele finda em um infinito futuro que não vejo, não tangencio e ainda não sou. Tento, por vezes, puxá-lo e antecipar o meu destino, mas boneca de pano que sou, sufoco-me em minhas linhas sempre que o faço. Angustiada, inquieta, passo então a esperar ansiosamente a vinda da costureira: a dona Circunstância. ... Nome mais sem jeito o dela! A princípio estranhei, claro, e duvidei dos seus dotes, até o dia quando a conheci.

Lembro-me como se fosse hoje... Eu ainda era um emaranhado de panos diariamente costurado pela minha mãe, a Infância. Dia após dia, ela me vinha com um retalho novo, mais resistente e detalhado que o primeiro, remendava alguns velhos, limpava outros e sempre, ao término, me dizia algo que eu nunca vou esquecer: “este é o seu novo retalho conhecimento e este a sua nova sabedoria. Nunca te esqueces, filha minha, de que nada adianta tê-los se não sabes fazer o entrelaçado preciso entre eles! O que importa na vida não são os retalhos, mas a moldura que dás a cada um deles.”.  E assim eu cresci... Entre panos, retalhos e memórias, me fiz mulher. Naquele dia, com a essência transbordando em seus olhos, minha mãe me abraçou e disse: eis aqui o teu ponto final... E ele, eu não darei. Deixar-te-ei em aberto para que escolhas o teu próprio caminho. Daqui em diante, te entrego a dona Circunstância, a costureira que irá te moldar sempre que necessário.

Mulher misteriosa, de olhar penetrante e envolvente, com traços de experiência na face, Circunstância nunca foi uma senhora de muitas palavras. Ela sempre veio rasteira, pelas esquinas e, subitamente, me mudava ao ponto de, algumas vezes, eu demorar a me reencontrar. Certo dia, sempre sucinta, ela me entregou uma agulha, uma tesoura, alguns simplórios e pequenos pedaços de pano e sussurrou: estas são as ferramentas do teu livre arbítrio. Já tens retalhos suficientes para saber até onde eu e minhas irmãs (sim, ela tem irmãs! E são muitas...) podem influenciar em tua vida. Mas cuidado quando usá-las... E se foi. Desde então eu nunca mais fui a mesma...

Eu não mais era tão somente reflexo das circunstâncias, eu tinha responsabilidade real sobre as minhas costuras! Eu era capaz não apenas de me ferir, mas também aqueles que me cercavam. E, então, surgiram os retalhos da estima, da insegurança, do medo... E eles me parecem tão difíceis de serem moldados, encaixados, que propositalmente (ou não) eu me sufoco no fio da vida, na ânsia da dona Circunstância surgir. Mas ela nem sempre surge... Ou nem sempre eu sei recebê-la...

E assim vive Poesia. De retalho em retalho, com costuras e remendos, aprendendo a ser boneca gente grande de pano e algodão. Sei que um dia a senhora dona do seu destino, a dona Circunstância, irá surgir como uma vertigem e seccionar a linha da vida sua. Mas até lá, ela nunca se esquecerá das palavras de sua mãe...

 

 

(Novembro, 2011)

 

 



Escrito por Alana às 01h47
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